A Beleza é Relativa? Reflexões sobre Estética, Filosofia e Arquitetura
- Veri Lourencetti
- 21 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Bem-vindo ao nosso espaço de reflexões! Hoje, quero conversar sobre um tema que atravessa séculos de debate filosófico, influencia nossas escolhas cotidianas e molda a maneira como enxergamos o mundo: a beleza. Essa questão surgiu de conversas profundas que tive recentemente, tanto em podcasts quanto com colegas que atuam na moda, na filosofia e, claro, na arquitetura — minha grande paixão.
O que significa dizer que a beleza é relativa? Será que essa afirmação resiste a uma análise mais cuidadosa? Quero te convidar para refletir sobre isso comigo, explorando o que pensadores antigos e a própria experiência humana têm a nos ensinar.
A Beleza como Valor Supremo
Na tradição filosófica, a beleza é frequentemente considerada um dos valores transcendentes, ao lado da verdade e da bondade. Os gregos perceberam que esses três valores estão interligados e nos impulsionam a buscar o que há de mais elevado. Queremos a verdade porque ela é verdade, buscamos o bem porque é o bem, e ansiamos pela beleza simplesmente porque ela é bela.
Se você já contemplou um pôr do sol e sentiu uma emoção imediata, sabe do que estou falando. Não é preciso explicar racionalmente por que o pôr do sol é belo — ele simplesmente é, e essa percepção é universal. Pessoas de diferentes culturas e histórias de vida, ao verem a mesma cena, reconhecem sua beleza. Isso sugere que a beleza não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas algo que possui uma dimensão objetiva.
Beleza Objetiva x Gosto Pessoal
Aqui reside a principal confusão: muitas vezes, confundimos a beleza com o gosto individual. O gosto é relativo — ele é moldado por nossas experiências, traumas, memórias e preferências culturais. Por exemplo, alguém que teve uma experiência negativa com a cor verde pode rejeitá-la, mesmo que a cor esteja inserida em uma composição visualmente harmoniosa.
Mas a beleza, como conceito, vai além dessas preferências pessoais. São Tomás de Aquino, por exemplo, definiu três características que estão sempre presentes no que é belo: proporção, integridade e clareza. Quando essas qualidades se manifestam, a beleza se revela, mesmo que nossa percepção nem sempre consiga captá-la de imediato.
A Percepção da Beleza como Exercício
Perceber a beleza é, em parte, um exercício. Quanto mais nos cercamos de elementos belos — arte, arquitetura, música, natureza, pessoas virtuosas — mais treinamos nosso olhar e sensibilidade. Assim como um paladar treinado distingue nuances de sabores, nossa percepção estética se aguça quando nos expomos à beleza de maneira constante.
Se você passar uma semana ouvindo música clássica e, no sétimo dia, colocar uma música de qualidade duvidosa, provavelmente sentirá um incômodo imediato. Isso não acontece porque você foi manipulado, mas porque sua sensibilidade à beleza foi lapidada. E o mesmo vale para a arquitetura: quanto mais nos conectamos com construções belas, mais conseguimos reconhecer a harmonia e o valor de um espaço bem projetado.
A Responsabilidade do Arquiteto pela Beleza
Aqui chegamos a uma questão crucial para nós, arquitetos: a busca pela beleza não é um luxo, é uma responsabilidade social. Já ouvi uma frase que diz que o erro de um médico pode matar uma pessoa, mas o erro de um arquiteto pode destruir uma cidade inteira. Isso porque a arquitetura molda o ambiente onde vivemos, impactando diretamente nosso bem-estar, nossa relação com o espaço e até nossa saúde emocional.
Se um arquiteto ignora a importância da beleza, corre o risco de criar espaços que desumanizam, que retiram do cotidiano a possibilidade de contemplação e encantamento. Por isso, estudar a beleza é essencial para a prática arquitetônica — ela não é um detalhe, mas a expressão da harmonia que buscamos para a vida humana.
Beleza, Verdade e Esperança
Mesmo nas situações mais difíceis, a beleza se faz presente. Por mais que alguém tente destruir a beleza de um lugar, ela persiste nos detalhes: no reflexo do sol sobre uma parede, na textura de um material natural, na simplicidade de uma flor que nasce entre rachaduras do concreto. A beleza é indestrutível porque está ligada à própria essência do ser — e ao buscá-la, inevitavelmente nos aproximamos da verdade e do bem.
Portanto, se queremos ser melhores arquitetos, melhores artistas e, acima de tudo, melhores seres humanos, precisamos nos comprometer com essa busca constante pela beleza. E, ao fazer isso, contribuímos para a construção de uma sociedade mais harmônica, mais justa e mais conectada com os valores que verdadeiramente sustentam a humanidade.



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